Noite

Um dia de cada vez, Helena, as noites são sempre mais difíceis, todos os fantasmas deitados em minha cama, os esqueletos me observando pela porta aberta do armário, espero acordar sozinha, acreditando que vai dar tudo certo. Em algum momento.

672 dias

Nesse momento, fúria. Um enorme pesadelo que se arrasta há anos, genocídio, negacionismo, kit covid, antivacina, lá em 2018 já sabíamos que seria um horror, mas uma pandemia mundial não estava na lista de “piores coisas que podem acontecer” de ninguém.

Na minha lista não constavam tantas outras coisas, algumas são do universo coletivo e seguem chocando todo mundo, outras são do campo pessoal e só enfurecem a mim. Nessa precariedade absurda do apocalipse só resta agradecer por estarmos vivos, eu os meus, e apesar disso ser tudo o que importa, já deixou de ser suficiente há tempos. São 672 dias que viraram um só, nem Ulisses daria conta.

O ano começa com tudo, tudo, tudo dando errado, uma sucessão de erros e problemas massacrante, me sinto numa ressaca de mar, sem dar pé, rolando e ralando pela areia, quase me afogando. Mas há alguma surpresa, alguma promessa, uma graça “para te ajudar na recuperação”, mesmo que o encontro precise ser adiado ad eternum.

Então, é isso o que tempos pra hoje: estamos vivos, mesmo que o viver se reduza, hoje, a respirar e existir, mesmo que esse respirar já não seja a plenos pulmões, nunca mais será. A realidade e as possibilidades da vida a se viver sendo comprimidas como numa armadilha de filmes de ação, as paredes e teto se fechando cada vez mais.

A fúria contida entre quatro paredes explode ou implode?

Aniversário

O tempo passa diferente para quem tem dois aniversários, para quem vive no tempo cronológico decidindo que a própria história não precisa ser uma sina, mas sempre um novo começo, para quem decide não se entregar, pelo menos não sempre, não o tempo todo. Para quem busca algo novo e encontra amor onde não deveria haver nada, onde o vazio se faz cheio de significados, para quem aprende a amar a vida, finalmente, em pleno apocalipse. O tempo passa diferente para quem aciona o desejo onde só há deserto, quando só há desterro e desespero, quando as trevas mostram frestas e brechas e a teimosia se mostra o melhor caminho para não sucumbir. O tempo se torna seu melhor amigo para quem não se entrega e, mesmo assim, aceita o tempo.

Planos

Acaba a primeira semana do ano e eu sigo fazendo nada, já que nada resolve ou muda o que quer que seja. Leio livros, compartilho canções e aguardo aquele romance que não é um romance virar alguma coisa. Nada de frio na barriga, ligações de madrugada ou cartas inesperadas, só tristeza mesmo. O século passado era muito mais interessante para o amor, Helena.

Não Amarás

Helena, meu amor, espero que esteja passando bem, eu sigo perdida nos dias, perdida de mim, há tanto que fervilha aqui dentro que até as palavras fogem. Um pouco de silêncio, um pouco de fantasia, busco em tempos passados algo que dê uma pista de mim, como é possível me perder assim. Imagens e palavras e melodias, uma avalanche de vidas vividas, sou uma anciã, Helena.

Dias

Bom dia, Helena, não sei se hoje é ontem ou anteontem, tenho essas músicas todas em mim, uma centena de playlists pela metade, porque quase todas são tristes, mas há também aquelas de amor e essas guardo para dias melhores. Ando ansiosa demais, temerosa demais, não sou assim, não desse tanto, mas agora aparentemente há essa persona confusa e perdida e ansiosa demais, choro pelos cantos, natal foi uma tristeza só, achei que iria passar, mas não. Essa sensação terrível de que não consigo respirar, não há faxina que dê conta. Seguimos.

Água

Sou terra, raiz e pés no chão carregando um oceano revolto que explode em ondas e se esconde em profundezas abissais. Da concretude e estabilidade da terra desse corpo duro e árido talhado em golpes de machado vertem cachoeiras de água: suo muito, choro muito, gozo muito. Liquefaço o que desejo, o que dói, o que me afeta. Mére, mar-mãe, sou terra-água, oceano em polvo de tentáculos enormes e onipresentes que ocupam todos os espaços, careço de vazios e espaços e brechas, tudo o que passa chega como brisa pela fresta da janela. Ou furacão e abismo.

Fim de ano

Helena, todos os anos tenho escrito textos de sobrevivência, já falei do tempo fatiado, da Simone, do não superar nada, do morrer feito Belchior, esse ano chego ao período festivo meio perdida, sem uma tábua de salvação. Ansiosa, medrosa, pensando no dia de amanhã, no ano que chega, na vida que não se realiza nunca. Comprei uma passagem como se houvesse alguma esperança, ingênua, você  deve pensar, e eu bem sei que não há salvação nem lá e muito menos aqui. Mas cada passo me permite achar que não estou mais presa à minha sina, esse destino desgraçado que alguém com péssimo senso de humor traçou pra mim. Por isso sigo fazendo planos e escrevendo textos e buscando (apenas um sentido), já quis tanto, hoje já quero só a ilusão da presença. O vazio segue imenso, me afogando num oceano de uma história não realizada.  Continuo  só querendo uma chance, Helena.

Casa

Bom dia, Helena, sei que deveria estar feliz, mas estou triste e exausta, exausta, me arrastando mesmo, não é só o fim do ano, todo o fim de ano, mas os milhares de mortos, a falta de esperança e essa sina de me sentir insuficiente, de não ter dado conta, quem deu? Leio sobre casas amarelas enquanto cantarolo “fiz minha casa no teu cangote” e eu queria tanto, tanto, que bastasse, queria só uma chance, sabe? Nem coloco mais a culpa nos hormônios, Helena. Sou só eu.