Acolher

Bom dia, Helena, dezembro chegou em lágrimas e nem é TPM, mas todo o resto, é tanta precariedade que não conseguimos mais respirar, a mão segue apertando o peito e a garganta e o coração, me sinto em um espremedor de gente, exausta. Penso que só queria um colo, mas só eu posso me acolher e repetir incessantemente que vai ficar tudo bem.

Vai?

Espera

Transito entre versos e refrões, o coração na mão embrulhado em papel de presente, Wislawa como um vislumbre de braços abertos, encharcada de afeto e temores, porque o mundo segue acabando e eu sigo pisando em ovos. Enquanto espero. Te espero.

Encontro

Helena, meu amor, a vida segue sendo esse assombro e, nesse momento, sou um poço de clichês sobre a arte do encontro embora haja tanto desencontro pela vida. Num fim de ano, num fim de mundo, nos reconhecemos em tantos pequenos pontos de encontro, pequenos presentes preciosos, tudo segue sendo urgente, até quando perdemos a hora, quando perdemos a fé, quando perdemos a crença de que vai dar tudo certo.

Estamos vivas, Helena, por pura teimosia e chatice, porque a vida não exige da gente só coragem, mas também a força de dizer não, e a gentileza de dizer sim. Neste momento tudo é possibilidade, mesmo que a finitude nos cerque como uma muralha, então fazemos planos mirabolantes para um futuro que nem sabemos se virá.

Não precisamos de mais nada.

Te amo, Helena, obrigada por tudo, por ser tudo.

Impulso

Helena, o calor hoje deu ares de verão e parecia que tudo ia dar certo, mas sabemos que não podemos nos precipitar. Ando impressionada com a impulsividade das pessoas e me percebo a cada dia mais cautelosa. Conto os dias para o nosso encontro, Alcione na vitrola e o coração na mão, aguardando.

Há tempos

“Parece cocaína, mas é só tristeza”, sempre lembro dessa parte, porque uma vida inteira sendo triste e disfarçando com outras coisas. Hoje em dia coloco a culpa nos hormônios, muito mais fácil do que assumir que sigo só, miseravelmente só, mesmo que o problema não seja esse, mas é, porque é tão mais fácil encarar todo o resto, a falta de dinheiro, a condição dos filhos, a apatia, a falta de perspectiva, esse fim de mundo cotidiano, quando não se carrega um coração partido. Não peço nada, nada, e mesmo um nada é tão difícil de encontrar. Sigo, mas exausta, Helena.

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Estas palavras que não lhe chegarão são um registro para marcar que existimos na distância de um afeto que não verá a luz do dia, nunca seremos e mesmo assim guardo para você todo o meu melhor. Só precisávamos de uma chance.

Frank

Bom dia, Helena, mais uma semana começa nublada como meu coração partido, na vitrola do aplicativo roda Doris Day cantando com Frank Sinatra e sinto falta de filmes em preto e branco, luvas e chapéus, cabelos e vestidos impecáveis. Nunca consegui ser impecável, há pecados demais para me desarrumar. A vida segue em preto e branco, mas esse é outro filme.

Sopro

A vida é esse eterno rasgar-se e remendar-se, Rosa sabia das coisas, enquanto o mundo acaba nós seguimos em trapos, tantos retalhos pelo caminho, tantos buracos que não fecham. Deixando ir muito mais do que deixando chegar, eu tenho dificuldades, apegada que sou, vulnerável que sou. Um muro feito de retalhos protege pouco, tenho achado ultimamente. Mas também tenho sido rocha, firme, sólida, consistente, impassível, ainda que tudo me abale, que tudo me afete. Hoje é sábado, Helena, dia de dançar, seguimos.