Gosto

O vinho tem gosto de cigarro, não consigo entender o porquê, mas a cada novo gole todas aquelas memórias voltam como um vento no rosto. Leio textos enviados em garrafas digitais e penso que o isolamento não só me emburrece, ou me embrutece – como insiste o corretor – mas também me confunde e paralisa. Tomo mais um gole e penso que não é só gosto de cigarro, é o gosto da bituca, aquele cheiro do tabaco já queimado, gosto de cinzeiro, de fim de noite, de embriaguez. Na última vez que acendi um cigarro senti também o seu gosto, o nosso gosto, de cachaça com campari, marlboros de diferentes cores, gosto de sexo e de café. Eu não sinto mais a sua falta, apesar de ainda lembrar de tudo, de ainda querer tudo, poderíamos ter sido tanto, nada me convence do contrário, nem os erros e desencontros todos. Mas a sua foi a última boca que beijei, talvez por isso teu gosto ainda siga vivo. Sigo assim, num apocalipse de vontade.

Um pensamento sobre “Gosto

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