Prazo

Bom dia, Helena, setembro acabou, perdi mais um prazo e nesses dias não quero nem sair da cama. Eu esperava aquele sol escaldante que me motiva a lavar paredes e cuidar das plantas, mas temos apenas mais um dia cinza. Muitos e muitos anos encarando esse céu nublado, essa temperatura amena que me deixa os pés gelados e faz parecer que a dor nunca vai embora. Eu nem sofria mais por mim, tudo segue na mais plena conformidade, continuo dando conta e perdendo prazos. Mas o mundo, Helena, o Brasil, o que é isso, como viemos parar aqui? Não há meme que dê conta de tanta gente horrível. Eu queria rodar o mundo com você, Helena, mas acho que nunca mais vou sair de casa.

Gente

Bom dia, Helena, mando notícias do front, Murphy anda abusando da dose, como sempre, ano passado eu estava na mesma, socorro. Talvez para fazer valer os bons momentos, que têm sido ótimos, sempre me surpreendo com o quanto sou amada, mas odeio essa ideia de que há alguma lógica de compensação no carma ou que pra ser feliz precisa sofrer. Pode ser mercúrio retrógrado, mas também pode ser consequência das péssimas escolhas que tenho feito ao longo da vida. Eu estava indo tão bem, achava mesmo que ia dar certo, mas não deu e esse apocalipse todo o dia e toda a hora cansa, por favor, já estou exausta.

Estudei muito tempo em escolas católicas e, para além da culpa cristã que encalacra na gente feito carrapato e não sai nunca mais, aprendi tudo sobre justiça social. A gente assistia Pixote e entendia que aquela realidade precisava acabar, mesmo que houvesse pouca gente fazendo algo de concreto para. A gente aprendia que as pessoas morriam de fome e que morrer de fome era horrível, a miséria precisava ser combatida. A gente aprendia que era preciso ajudar ao próximo e mesmo que houvesse um tanto de caridade vazia ali, havia também o entendimento de que aquelas pessoas que morriam de fome eram gente. Quando foi que deixamos de ser gente, Helena?

Naquela outra vida que vivíamos antes do fim do mundo eu ia para São Paulo para ver shows e visitar museus. Imagine só, parece um sonho. Então, em 2018, estive no Masp e vi um Jesus com cara de meme, não fotografei porque não sou dessas, eu guardo tudo na memória fotográfica que não me permite partilhar imagens. Vi também os retirantes de Portinari e me lembrei de Asa Branca e só deixo o meu Cariri no último pau de arara e a seca no nordeste e a Sudene e todo aquele horror que foi viver no século 20. Tinha outras coisas maravilhosas, Helena, você sabe disso, mas tinha a fome. Então eu chorei ali mesmo no museu, porque nós tivemos o Lula, que errou tanto mas acabou com a fome e só isso já devia ser o suficiente. Porque de repente as gentes eram gentes de verdade, sabe?

Mas agora a gente não é mais gente, as pessoas horríveis venceram e o sinal está fechado pra nós que já estamos velhas demais pra tudo isso, cansadas demais para aguentar saber que tem quem submeta a própria mãe a experimentos médicos, somos todas cobaias desse laboratório de horrores que virou o Brasil, as pessoas todas aceitando tudo, acreditando em tudo, vivendo essa vida de gado, povo marcado e povo feliz. Eu choro de tristeza e de exaustão e de frustração e impotência e quero morrer cada vez que alguém vem medir a temperatura no meu pulso. No pulso.

Mas aí eu penso que ainda é tempo de morangos, a primavera está florescendo e amanhã vai ser outro dia, espero que ďê, Helena, porque hoje não está dando. Sim, tpm e saudade e um desânimo que olha, vou te contar. Pode ser falta de álcool também, você bem sabe, o vinho tá ali esperando. Seguimos.

Te quiero

Tus manos son mi caricia
mis acordes cotidianos
te quiero porque tus manos
trabajan por la justicia
si te quiero es porque sos
mi amor mi cómplice y todo
y en la calle codo a codo
somos mucho más que dos
tus ojos son mi conjuro
contra la mala jornada
te quiero por tu mirada
que mira y siembra futuro
tu boca que es tuya y mía
tu boca no se equivoca
te quiero porque tu boca
sabe gritar rebeldía
si te quiero es porque sos
mi amor mi cómplice y todo
y en la calle codo a codo
somos mucho más que dos
y por tu rostro sincero
y tu paso vagabundo
y tu llanto por el mundo
porque sos pueblo te quiero
y porque amor no es aureola
ni cándida moraleja
y porque somos pareja
que sabe que no está sola
te quiero en mi paraíso
es decir que en mi país
la gente viva feliz
aunque no tenga permiso
si te quiero es porque sos
mi amor mi cómplice y todo
y en la calle codo a codo
somos mucho más que dos

Mario Benedetti

Bolo

Meu amor,

Essa é a primeira carta que te escrevo, tenho certeza de que ainda serão muitas, pois sou da palavra escrita, tudo acontece mais facilmente quando escrevo, mesmo que agora te mande áudios de 8 minutos, bêbados e sóbrios, de bom dia e de boa noite. Não há nada mais que mobilize essa carta além da saudade do que ainda não vivemos – olha que meme-clichê -, porque nunca te vi e sempre te amei, o filme nem é essas coisas, mas o título é perfeito demais para nós. Agradeço todos os dias esse amor e esse encontro, porque almas assim que se amam no primeiro olhar e depois seguem se amando todos os dias, não encontramos em qualquer lugar, como pode o fim de mundo ser tão absurdamente louco. Quero uma vida com você, Helena, fazer uma loucura por você, voltar para casa sem um sapato, quero nem saber o motivo, mas tem que acontecer. Conto os dias para esse encontro e te mando presentinhos porque agora é só isso o que importa: seguirmos vivas. Te amo.

Ps: quando puder, dê um abraço no Vilso por mim, ele já foi incluído nos nossos planos, até o asilo onde vamos morar um dia.

Dente

Desde o início do isolamento eu li pessoas comentando sobre dentes trincados. Comigo o dente foi logo quebrando, partindo ao meio, sem chance de reparo ou salvação. Foi lá por março, aquele momento em que a vida saiu dos eixos e parecia que eu não ia sobreviver, aquela dor lancinante me mostrando que estava viva, mas estava sofrendo tanto que pedaços meus estavam indo embora. Com um curativo, vim me arrastando até aqui, esperando aqueles dias melhores que nunca vieram, não posso baixar a guarda nem um segundo, tudo chega em avalanches, um bandaid para estancar uma hemorragia, sigo sangrando. Depois de dias de dor e raiva porque não posso nem me dar ao luxo de parar para me curar, me vejo novamente exposta àquela absurda tortura medieval que é uma sessão de qualquer coisa no dentista. Não tem como não contestar a existência divina, a necessidade de se submeter a tal humilhação, o homem já foi à lua e ainda estamos sujeitas a brocas e lixas e parafusos e toda a sorte de instrumentos perfurantes e barulhentos. Eu pensei na vida, filosofei sobre a existência e tentei encontrar algum sentido naquela precariedade toda. Falhei. Saí dali com umas 7 doses de anestesia, nada aqui é metáfora, sempre é bom lembrar, e não consigo deixar de pensar que ainda medimos temperatura pelo pulso, imagina o absurdo. Não há nenhuma moral nessa história, apenas aquele cansaço extremo de quem queria só uma brecha. Mas Murphy não dá trégua por aqui.

Seguimos.

Vem quem quer, fica quem dá conta

Por incrível que pareça, sou uma pessoa muito reservada. Mesmo falando pelos cotovelos, contando causos e mais causos de foras a corações partidos, escrevendo sobre minhas dores e dissabores, há algo que sempre escapa, algo que é só meu e não compartilho com ninguém além da analista. Algumas coisas nem com ela. Isso não quer dizer que eu seja falsa, ou que omita coisas importantes, até porque está tudo lá. Máira Nunes, professora, mãe de gente, mãe de pet, mãe de planta, muitas dívidas e pouco tempo. Poderia ser minha descrição no Tinder, um resumo da ópera bufa que é a minha vida. Qualidades: beber uma garrafa de whisky, dançar até de manhã, parir filhos sem anestesia. Nem tudo precisa ser dito, fui aprendendo aos poucos, gosto muito de falar, gosto de falar muito. Mas passei quinze anos muda, sem interlocução, e jurei pra mim mesma que não deixaria mais isso acontecer. “Onde não puderes amar não te demores”, diz a frase atribuída a Frida Kahlo e eu, que amo sozinha, amo por 2, me demoro demais em lugares e pessoas, demais mesmo. Daí que criei uma versão diferente, algo como “onde não puderem te amar, não te demores”. Exausta de ser demais, ou de menos, de nunca ser a pessoa certa, talvez se não tivesse essa bagagem toda, essa força toda, essa intensidade toda. Ou talvez se não houvesse tão pouco tempo, tão pouca paciência, tão pouca delicadeza, tão pouca disponibilidade. Difícil se demorar quando quem te acompanha é um trator, um vulcão, um abismo. Pois é isso mesmo, “what you see is what you get”, mesmo que seja só na versão demo, só na versão resumida, só na versão teste grátis por 30 dias. Foi preciso muito tempo para entender que não há nada de errado em ser trator, ou vulcão ou abismo, principalmente quando há respeito e honestidade. Que não é preciso se ajustar à expectativa do outro, afinal o que é do desejo do outro é problema do outro. Nem sempre é fácil, nem sempre é agradável, mas é um caminho muito importante de autoaceitação.

Vem quem quer, fica quem dá conta.

Contenção

Há que se ter medidas de contenção. Quais, apenas o momento irá dizer, mas há que se estar atenta e forte. Nem um minuto a mais, o muro precisa seguir alto e intransponível. Sem brechas, sem frestas, qualquer respiro que adentre precisa acionar o sinal de alerta. Não passe, não transpasse,  respeite os limites, mantenha a distância. Contenha. Contenha-se. Contenho-me.