Dente

Desde o início do isolamento eu li pessoas comentando sobre dentes trincados. Comigo o dente foi logo quebrando, partindo ao meio, sem chance de reparo ou salvação. Foi lá por março, aquele momento em que a vida saiu dos eixos e parecia que eu não ia sobreviver, aquela dor lancinante me mostrando que estava viva, mas estava sofrendo tanto que pedaços meus estavam indo embora. Com um curativo, vim me arrastando até aqui, esperando aqueles dias melhores que nunca vieram, não posso baixar a guarda nem um segundo, tudo chega em avalanches, um bandaid para estancar uma hemorragia, sigo sangrando. Depois de dias de dor e raiva porque não posso nem me dar ao luxo de parar para me curar, me vejo novamente exposta àquela absurda tortura medieval que é uma sessão de qualquer coisa no dentista. Não tem como não contestar a existência divina, a necessidade de se submeter a tal humilhação, o homem já foi à lua e ainda estamos sujeitas a brocas e lixas e parafusos e toda a sorte de instrumentos perfurantes e barulhentos. Eu pensei na vida, filosofei sobre a existência e tentei encontrar algum sentido naquela precariedade toda. Falhei. Saí dali com umas 7 doses de anestesia, nada aqui é metáfora, sempre é bom lembrar, e não consigo deixar de pensar que ainda medimos temperatura pelo pulso, imagina o absurdo. Não há nenhuma moral nessa história, apenas aquele cansaço extremo de quem queria só uma brecha. Mas Murphy não dá trégua por aqui.

Seguimos.

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