Maria

Bom dia, Helena, não tem como sair impune de Bethânia, tanta força, tanto amor, tudo tão intenso, a vida tem um sentido diferente, ganha outra perspectiva. Que possamos seguir nos afetando, que os afetos sigam nos encharcando. Pra quem mergulha de cabeça no abismo do sentir, tudo é possível. Sigo reverberando amor. Obrigada, Helena.

Zorba

Sexta-feira, nada faz sentido a não ser a vontade de abrir um vinho. Eu fui uma cinéfila promissora, hoje só assisto a séries ruins e programas infantis, mas houve essa vez em que decidimos ver Zorba, o grego, eu e minha irmã, ansiosas pela clássica cena da dança na praia, aquela música maravilhosa. Demoramos uma semana, não chegava nunca, durou 2 minutos, foi muito frustrante. Minha vida sempre foi essa comédia pastelão, um tanto de ridículo, outro tanto de drama, mezzo John Hughes mezzo Lars Von Trier (odeio com força, mas meu roteirista aqui parece apreciar). Teve também a vez que eu decidi fazer trufas na manteiga, ouvi a receita no programa no Ronnie Von, derreti o chocolate, embanhado na manteiga, aquele sebo todo, óbvio que só descobri que o ingrediente era um cogumelo caríssimo depois de ter destruído toda a receita. Minha mãe adorava contar essa história em prosa e verso. Bateu até uma saudade, aparentemente fracassar no século passado era muito mais divertido.

Manuscrito

Houve também aquele tempo em que eu ousei abraçar o mundo, tudo era possível, lia Clarice como um oráculo. Macabéa em tinta e papel, palavras mágicas, uma emoção intensa apenas de estar ali sendo testemunha daquela tinta naquele papel. Mesmo que doa, ainda é tempo de morangos é um mantra de vida.

Dilúvio

Helena, meu amor, chove sem parar e eu penso que queria tanto um dia inteirinho de sol, ou quem sabe muitos, para poder lavar toda a minha vida que apodrece em mofo e poeira, tomar também uma cerveja gelada ouvindo Beth Carvalho, sentindo o calor no rosto e nos pés, mas não, domingo e chove e já não sei há tempos o que fazer de mim ou da minha vida, a cada respiro vem um novo tombo, já nem levanto mais, porque minha vida é esse eterno meme de fracasso. Amanhã vai ser outro dia, podia ser Chico mas na verdade é Scarlett, aprendi desde cedo a fazer o que precisa ser feito. Beijos e boa noite, Helena.

Expelir

Bom dia, Helena, escrevo todos os dias para ver se consigo expelir tudo o que me habita, ainda sufoco nesse caos de sentimentos e memórias e histórias não contadas que há tanto me acompanham. É uma presença absoluta, massacrante, difícil encontrar uma fresta que seja, me sinto em Brilho Eterno fugindo em busca do vazio que me permita silenciar. Falo sobre dores e medos e apocalipses porque é tudo o que carrego desde sempre, queria encontrar um lugar no espaco-tempo que fosse de alegria e leveza, talvez crie um para mim. Deveria começar a escrever sobre tudo o que eu poderia ter sido e não fui, nunca tive sequer uma chance, uma infância em super 8 com risadas e colo e aquele ar de que vai dar tudo certo. Não quero mais falar sobre isso, mas ainda há tanto a expurgar, a culpa é sempre da mãe, mas obviamente do pai, e cansei de ser mãe e pai e a família e a santíssima trindade toda. Cansei de ser tudo, Helena.

Respiração

Bom dia, Helena, quase um mês com a respiração presa, aguardando o resultado de um processo que não é meu e sobre o qual não tenho nenhum controle. Não poder agir, mover, fazer é o que mais me abala, apenas esperar. Pois bem, não sei se ainda poderei algum dia respirar a plenos pulmões, mas ontem foi possível um suspiro aliviado. Já é o suficiente.

Esperança

Bom dia, Helena, hoje acordei um pouco mais leve, mesmo que a vida siga em urgências. A dor está passando, o feriado chegou e estou quase conseguindo respirar novamente, um pouco de esperança na expectativa de aconchego e afeto. Um amigo muito querido e muito, muito inteligente me falou que precisamos guardar o pessimismo para dias melhores, o que soa quase impossível quando se vive o apocalipse. Como manter viva a crença de que vamos sobreviver e, olha só que ousadia, de que vamos viver finalmente aquela vida que ficou em suspenso? Eu penso nisso, todos os dias, exasuta desse cinza, dessa inércia, desse cansaço. Mas eu sigo dizendo que vai dar tudo certo, entendendo que sobrevivi a 100% dos meus piores dias, até quando não. Minha esperança é assim, meio contida, meio tímida, mas sempre presente na espera dos dias melhores. Sigo esperando. Sigo te esperando.

“A ruína não nos dá medo. Sabemos que não vamos herdar nada mais que ruínas. Porque a burguesia tratará de arruinar o mundo na última fase da sua história. Porém, nós não tememos as ruínas, porque levamos um mundo novo em nossos corações. Esse mundo está crescendo nesse momento”. Buenaventura Durruti

Homem

Bom dia, Helena, ontem foi um dia difícil, esses dias têm sido todos tristes e solitários e eu sei que a maternidade é assim mesmo, solitária, eu lido bem, mas quando o mundo segue acabando e caindo e os dias seguem cinzas e frios fica sempre um pouco mais difícil. Hoje eu queria falar só sobre o ser mãe na sociedade héterociscapitalista, mas o patriarcado não perde tempo e os homens brancos andam esperneando por causa da ditadura identitária. Então vou me contentar em trabalhar, alimentar os filhos e preparar minha fala sobre decolonialidade. Porque não descolinizamos nada, não queerizamos nada, não enviadamos o mundo. Ainda. Estou azeda, eu sei, mas não perdi o fogo, fique tranquila Helena, ainda vamos queimar.