Não Amarás

Helena, meu amor, espero que esteja passando bem, eu sigo perdida nos dias, perdida de mim, há tanto que fervilha aqui dentro que até as palavras fogem. Um pouco de silêncio, um pouco de fantasia, busco em tempos passados algo que dê uma pista de mim, como é possível me perder assim. Imagens e palavras e melodias, uma avalanche de vidas vividas, sou uma anciã, Helena.

Dias

Bom dia, Helena, não sei se hoje é ontem ou anteontem, tenho essas músicas todas em mim, uma centena de playlists pela metade, porque quase todas são tristes, mas há também aquelas de amor e essas guardo para dias melhores. Ando ansiosa demais, temerosa demais, não sou assim, não desse tanto, mas agora aparentemente há essa persona confusa e perdida e ansiosa demais, choro pelos cantos, natal foi uma tristeza só, achei que iria passar, mas não. Essa sensação terrível de que não consigo respirar, não há faxina que dê conta. Seguimos.

Água

Sou terra, raiz e pés no chão carregando um oceano revolto que explode em ondas e se esconde em profundezas abissais. Da concretude e estabilidade da terra desse corpo duro e árido talhado em golpes de machado vertem cachoeiras de água: suo muito, choro muito, gozo muito. Liquefaço o que desejo, o que dói, o que me afeta. Mére, mar-mãe, sou terra-água, oceano em polvo de tentáculos enormes e onipresentes que ocupam todos os espaços, careço de vazios e espaços e brechas, tudo o que passa chega como brisa pela fresta da janela. Ou furacão e abismo.

Fim de ano

Helena, todos os anos tenho escrito textos de sobrevivência, já falei do tempo fatiado, da Simone, do não superar nada, do morrer feito Belchior, esse ano chego ao período festivo meio perdida, sem uma tábua de salvação. Ansiosa, medrosa, pensando no dia de amanhã, no ano que chega, na vida que não se realiza nunca. Comprei uma passagem como se houvesse alguma esperança, ingênua, você  deve pensar, e eu bem sei que não há salvação nem lá e muito menos aqui. Mas cada passo me permite achar que não estou mais presa à minha sina, esse destino desgraçado que alguém com péssimo senso de humor traçou pra mim. Por isso sigo fazendo planos e escrevendo textos e buscando (apenas um sentido), já quis tanto, hoje já quero só a ilusão da presença. O vazio segue imenso, me afogando num oceano de uma história não realizada.  Continuo  só querendo uma chance, Helena.

Casa

Bom dia, Helena, sei que deveria estar feliz, mas estou triste e exausta, exausta, me arrastando mesmo, não é só o fim do ano, todo o fim de ano, mas os milhares de mortos, a falta de esperança e essa sina de me sentir insuficiente, de não ter dado conta, quem deu? Leio sobre casas amarelas enquanto cantarolo “fiz minha casa no teu cangote” e eu queria tanto, tanto, que bastasse, queria só uma chance, sabe? Nem coloco mais a culpa nos hormônios, Helena. Sou só eu.

agora é quase amanhã

Obrigada por ter vindo. Eu sei que é loucura, ligar assim no meio da noite. Nos conhecemos tão pouco. Talvez não houvesse outro modo. E a noite é tão silenciosa. Daqui a pouco vai amanhecer. Não gosto de me fazer inusitada. Mas o dia só acaba quando a gente sonha. E eu queria ver você. Pensei em você. Justamente por ser mais distante de mim do que qualquer outro. E tão próxima. Assim é que vejo. Precisava olhar de perto essa expressão de espanto e surpresa. Os meus amigos não se surpreendem mais. Estão todos entediados da vida. Cheios da vida, como não dizem os anúncios publicitários. Você é silenciosa como a madrugada. E eu fico enchendo seus olhos de palavras. Não é nada sério. Acredite. Só queria viver esse dia até o fim. Só queria ver no fim desse dia esses seus olhos. Um anônimo que surpreenda esse olhar solto na rua de um dia qualquer vai sentir também assim. O que digo não é absurdo. Acredite. Quero que saiba: não tenho mais medo. Os medos estão todos em mim apaziguados. Nenhum outro receio que seja pode atravessar a linha da minha tristeza. Por isso chamei você aqui. Para que o dia comece depois do sonho. Agora é quase amanhã. E a manhã surgirá coberta de uma superfície silenciosa. Acolhendo os gritos do dia. O imenso dia. Depois não saberemos mais. E não saber está entre o que é temor e possibilidade.

Assionara Souza

recado – Assionara Souza

Recado

“Preciso que você veja
Entre as coisas esquecidas
A louça suja na pia
O mofo pousando cruel na doçura das frutas
Observe, por favor, se não deixei
Naquele canto do quarto
Por onde os insetos entram
Na ferrugem do ferrolho da janela da cozinha
Essa que sempre te acorda
Quando eu insisto em abrir
Assim que o sol se ajeita melhor no céu
Procure na caixa de areia dos gatos
Entre os pelos dos bichanos onde correm as pulgas que não matei
No desgaste da bicicleta largada no jardim
Talvez no banco de trás do carro que estraga estraga e você conserta
Olhe também embaixo das espreguiçadeiras
Na água amarga do jarro de flores que você esquece de trocar
Na ansiedade que antecede a raiva, quando a moça do telemarketing
Não atende, não atende, não atende
Sua solicitação
Entre os livros da estante, tantos não lidos —
Em eterno estado de espera e culpa burguesa
Nas mil declarações de amor que lhe chegam in box
Vigie se por ali, no cheiro do café
No pão cortado, os farelos sobre a mesa
No silêncio entre as notas de sua música preferida
Dá uma olhada se não larguei por esses cantos
Os sete pedaços do meu coração.”

Assionara Souza