Saudade

Para marcar o dia da saudade escolhi essa foto, não apenas porque estou feliz, bêbada e apaixonada em um albergue parisiense (quem não é feliz em Paris, não é mesmo?), mas porque marca um tempo em que eu acreditava no futuro. Essa talvez seja a minha maior saudade hoje, a de poder projetar, esperar e esperançar  uma vida, um plano, um existir outro. Nesse tempo ainda tudo era viável, um horizonte imenso de possibilidades que, mesmo que não tenham se concretizado, estavam lá. Sobreviver nesse fim de mundo de um presente absoluto tem exigido fazer as pazes com essa temporalidade atípica, tudo se mistura numa dança non sense. Então, hoje registro minha saudade do velho e do novo, de andar na rua, sentar no meio fio, abraçar pessoas pela primeira ou pela milionésima vez, conhecer novos sabores, aquele frio na barriga de um amor correspondido, molhar os pés  na água do mar, de existir um amanhã, de acreditar que vai dar tudo certo. Eu tenho uma lista de saudades, não cabe aqui, mas registra tudo e todes que escolho levar comigo, enquanto existo nesse deserto do possível.
Seguimos ❤

20 dias

Um exagero de séries ruins, muitas músicas que não dizem nada para/sobre mim, quase nenhum contato, mesmo que virtual, uma saudade que aperta o peito, não aguento mais habitar em meus próprios pensamentos, já não me acho mais tão legal assim. Poderia estar produzindo, escrevendo , vivendo aquela vida que almejo há tanto, mas não, sigo afogada em desejo e comiseração. Insuportável esse fim de mundo, eu queria muito cair lutando e não apenas definhar em casa. São 20 dias sem álcool, não aguento mais, Helena.

10 dias

É um ciclo, Helena, o da cura, não há como apressar ou ignorar. Dias e dias da vida acumulando, tudo atrasado, aquela sensação de fracasso e o ano mal começou. Primeiro preciso curar a raiva, porque nada disso era para eatar acontecendo e só preciso aceitar e não quero, sigo enfurecida. Depois é preciso curar o medo, tanto medo que paraliso e mal consigo sair da cama. Depois é preciso curar a precariedade esse beco sem saída de quem não tem a quem recorrer a não ser a si. Sigo exausta, Helena.

Noite

Um dia de cada vez, Helena, as noites são sempre mais difíceis, todos os fantasmas deitados em minha cama, os esqueletos me observando pela porta aberta do armário, espero acordar sozinha, acreditando que vai dar tudo certo. Em algum momento.

672 dias

Nesse momento, fúria. Um enorme pesadelo que se arrasta há anos, genocídio, negacionismo, kit covid, antivacina, lá em 2018 já sabíamos que seria um horror, mas uma pandemia mundial não estava na lista de “piores coisas que podem acontecer” de ninguém.

Na minha lista não constavam tantas outras coisas, algumas são do universo coletivo e seguem chocando todo mundo, outras são do campo pessoal e só enfurecem a mim. Nessa precariedade absurda do apocalipse só resta agradecer por estarmos vivos, eu os meus, e apesar disso ser tudo o que importa, já deixou de ser suficiente há tempos. São 672 dias que viraram um só, nem Ulisses daria conta.

O ano começa com tudo, tudo, tudo dando errado, uma sucessão de erros e problemas massacrante, me sinto numa ressaca de mar, sem dar pé, rolando e ralando pela areia, quase me afogando. Mas há alguma surpresa, alguma promessa, uma graça “para te ajudar na recuperação”, mesmo que o encontro precise ser adiado ad eternum.

Então, é isso o que tempos pra hoje: estamos vivos, mesmo que o viver se reduza, hoje, a respirar e existir, mesmo que esse respirar já não seja a plenos pulmões, nunca mais será. A realidade e as possibilidades da vida a se viver sendo comprimidas como numa armadilha de filmes de ação, as paredes e teto se fechando cada vez mais.

A fúria contida entre quatro paredes explode ou implode?

Aniversário

O tempo passa diferente para quem tem dois aniversários, para quem vive no tempo cronológico decidindo que a própria história não precisa ser uma sina, mas sempre um novo começo, para quem decide não se entregar, pelo menos não sempre, não o tempo todo. Para quem busca algo novo e encontra amor onde não deveria haver nada, onde o vazio se faz cheio de significados, para quem aprende a amar a vida, finalmente, em pleno apocalipse. O tempo passa diferente para quem aciona o desejo onde só há deserto, quando só há desterro e desespero, quando as trevas mostram frestas e brechas e a teimosia se mostra o melhor caminho para não sucumbir. O tempo se torna seu melhor amigo para quem não se entrega e, mesmo assim, aceita o tempo.

Planos

Acaba a primeira semana do ano e eu sigo fazendo nada, já que nada resolve ou muda o que quer que seja. Leio livros, compartilho canções e aguardo aquele romance que não é um romance virar alguma coisa. Nada de frio na barriga, ligações de madrugada ou cartas inesperadas, só tristeza mesmo. O século passado era muito mais interessante para o amor, Helena.