Sopro

A vida é um sopro, Helena, e de clichê em clichê me despeço de uma pessoa horrível. Morreu de infarto fulminante, me contaram, e ponto. Vazio. Já havia arrancado da minha vida há tanto tempo. Meu primeiro orgasmo e a única lembrança boa de uma pessoa péssima que, até o fim, não conseguiu melhorar como gente. Não sei quem chora a sua morte, se conseguiu encontrar algum amor ou amizade verdadeiros. Quem mente e manipula compulsiva e narcisicamente, muitas vezes consegue. Mas desconfio que não, porque quase trinta anos depois me procurou para dizer que tinha virado uma boa pessoa e que ainda guardava as minhas cartas. Primeiro fiquei com raiva, depois triste, depois feliz. Por mim. Por tudo o que vivi depois dele. Apesar dele. Morreu uma pessoa horrível. Rest in Hell.

Bofete

Will estapeou Chris em solidariedade a Jada e depois de todo o infrutífero debate no dia de hoje, só consigo pensar que jamais experimentei esse tipo de apoio, companheirismo, empatia, o que quer que seja. Não consigo pensar em nenhuma das minhas relações que pudesse gerar algo remotamente parecido. A maioria foi a própria fonte da violência. Fiquei triste por mim mesma, Helena, que vida miserável.

Volta

Depois de um tempo eu parei de contar. Os dias, as horas, os meses, nem sei bem em que ano estamos, essa hiper compressão temporal cotidiana que dura tempo demais. Sei que entrei em quraentena em um 16/03, me apaixonei em um 01/05, entrei para as estatísticas pandêmicas em um 09/01, voltei para a sala de aula em um 23/03. Se um dia eu consegui marcar datas como essas em um calendário de experiências, hoje elas são números que dizem pouco sobre o que se viveu entre quatro paredes. É como perder um pedaço de si. Olho todas as fotos e textos buscando um sentido, há uma linha de vida ali e de repente um buraco, de sintomas e sequelas, um vazio imenso em que nada faz sentido. Nesse Adeus Lenin pessoal, todos os dias descubro que meu mundo não existe mais e preciso reaprender a viver essa nova vida.

Pandemia, ano 3, 736 dias de Isolamento.

Dançando furiosamente em meio ao caos.

Verão

Minha foto de último dia de verão é impublicável. Mas ela existe, mostrando ali que é possível ser feliz sem seguir script algum. Um romance que não é romance não poderia ser diferente. Hoje nem é segunda, Helena, mas poderia ser. A semana começando e a impressão de que tudo vai dar certo.

Being loved

Olho aquele rosto em frente ao quadro e penso no quanto aquele amor foi intenso, mesmo que não vivido, penso em quantos amores já amei até que Kate diz: é a primeira vez que ela está sendo amada e é ali que tudo desmorona, porque só quem nunca foi amada assim entende esse vazio e a vida de tentar tampa-lo amando por dois.