Trincas

Um deja-vú, Helena, o dia de hoje. Sonhei com flores enquanto o dentista escarafunchava minha boca, naquela absurda sessão de tortura à qual chamamos de tratamento. Repensei todas as péssimas decisões que tomei em minha vida, mais uma vez, como se houvesse um jeito de reparar o abandono e o vazio de quem se fez sozinha no mundo. Como se aquele dente trincado não representasse também os erros de agora, um coração pulsando acelerado, cheio de medo e desejo nesse meu corpo esfacelado. O apocalipse acabou por decreto, avisa o jornal, e eu permaneço incrédula achando que esse pesadelo nunca vai acabar. A utopia agora é um chalé chamado Noam Chomsky, ridícula que eu sou.

Plano B

Um belo dia você acorda e se percebe essa pessoa que não sabe o que será do dia de amanhã, se haverá um amanhã, sem planos, planejamentos, sem perspectivas. Tudo é possível mesmo não sendo, chorar em Paris, trabalhar na Nova Zelândia, passar um fim de semana na praia. Não há rota, mapa, nem caminho traçado, só uma distância a ser percorrida.

Véspera

Comecei o dia ficando na rua sem gasolina. Não preciso nem dizer como foi o resto, poderia fazer uma crônica irônica sobre minha própria desgraça, melhor tipo de humor. Mas ando tão exausta que até as palavras me fogem, Helena. Aguardo o embarque-desembarque para ter certeza de que vai ficar tudo bem.

Uns dias

Uma sequência de dias horríveis é o prenúncio de algo melhor ou só o tal do “novo normal”? Imagino Murphy sentado numa poltrona, um drink com guardachuvinha na mão, gargalhando da minha cara. Mas amanhã vai ser outro dia, Helena, já dizia o Chico, e embarco para o desconhecido porque eu sou é teimosa.

BSB

Hoje pensei naquela festa em que tomamos chá em xícaras de porcelana e cachaça no gargalo da garrafa, vestidas em baby doll, beijos alternados e intermináveis, amores e dramas que só os jovens são capazes de produzir, um carro antigo com bandeira verde-amarela de caveira, quando isso ainda poderia significar algo interessante e não odioso. Pensei numa calcinha branca de presente, usada, porque essa era a graça, mergulhos na piscina, marcas no pescoço e pouca ou nenhuma vergonha. Tudo era possível mesmo nada sendo permitido, a cada dia uma nova contravenção, uma nova possibilidade mesmo que repetissem que não. Hoje lembrei de mim, e nem feliz eu era. Mas achava que podia ser, uma montanha russa de sentimentos e vivências e sonhos e dores. Hoje lembrei de mim.