Cabos

A vida segue seu curso, Helena, mesmo que eu esteja soterrada de trabalho e medo, mesmo que mais uma vez não possa fazer o curso do Carlito, mesmo que a saudade aperte e eu passe o dia com os olhos marejados. Exaustas venceremos, eu poderia dizer, mas nem eu ouso me enganar assim. Hoje passei um tempo desenrolando metros e mais metros de cabo, porque esse é o tamanho do sintoma e da falta de noção.

Feito a mão

Todas as cartas de amor são ridículas, não é Helena? Eu mudaria para todas as pessoas que amam são ridículas, porque olha, dias costurando e descosturando um presente, nem Penélope aguentaria, só pensando na metáfora para a minha vida: torto, mal acabado, sem molde, umas partes feitas erradas e remendadas por cima, um esforço gigantesco para esconder as gambiarras, um amor em cada ponto rapidamente dando lugar a “agora vai na força do ódio”. Um ano. Planejando o futuro? Não, imaginando um boneco.

Cleiton, o cthulhu mais feio do mundo. E eu, uma ridícula apaixonada.

Copa

Depois dos 30 eu comecei a separar as pessoas entre as que tinham sofrido com a copa de 82 e o resto. Isso definia o tipo de interlocução que eu teria, pois só quem viveu aquela derrota tem a alma talhada em real brasilidade. Hoje eu tenho um namorado que nem nascido era e o critério é outro, passando por não ser um ser humano horrível e por ser antifascista, esse último um atributo inegociável. E como eu conheço muita gente horrível, todos os dias me apego em algo que me salva. Normalmente é um texto, imagine só ser salva por palavras, às vezes é uma pessoa, hoje fui salva tantas vezes por pessoas e por palavras que acho que fiquei devendo. Estar viva é sempre esse assombro.

Mercado

Hoje acordei chorando, não de tristeza mas de resfriado, difícil manter um corpo saudável quando o mundo se esfacela. Mas sonhei com você e com senhorinhas no mercado, sem catástrofes ou tragédias, só a banalidade da vida e do amor. Parece um bom sinal.

Yang

Teve aquele tempo de paixões avassaladoras, foram muitas, mas essa desconfio que foi a mais insana, aquela beleza desconcertante, um desejo pueril efervescente e eu, uma ridícula. Um amor de linha telefônica, Pessoa certamente aprovaria, a esquisita e o desajustado, um desencontro desses não acontece todo dia. Século passado e aquele cheiro ainda me arrepia, tudo projeção, ilusão, mas o frio na barriga, esse não passa, nem o “e se”.

Mãe de mim

Nesse dia das mães eu quero falar sobre ser mãe: solteira, porque esse estigma eu carrego com orgulho, como carrego o de ser desquitada, de ser vadia, de ser livre. Mas também sobre ser mãe de mim mesma, porque antes de ser 100% responsável pelas minhas crias, tenho sido  100% responsável pela minha  própria sobrevivência desde sempre. Não é uma questão de dinheiro, ou não apenas, mas o fato de que essa solidão materna que hoje faz com que eu tenha que lidar sozinha com todos os aspectos da existência dos filhos  também passa por uma vida tendo que  lidar absolutamente sozinha com todos os aspectos da minha própria vida. É um sobreviver duro, árido, esse de não poder contar com ninguém a não ser consigo. Não ter um colo, um abraço, uma palavra de conforto. Hoje o desafio de ser a mãe que os meus filhos precisam esbarra na construção de ser a mãe que eu precisava e não tive. Se é preciso uma aldeia pra criar uma criança, o que é preciso pra criar uma mãe?
Então, sendo minha própria mãe, vou buscando formas outras de maternar e de existir.
Deixo hoje um abraço a todo mundo que tem que ser sua própria mãe e que a gente possa, cada vez mais, destruir essa violência toda que a gente chama de família e gestar modos outros de criar afetos e vínculos.