Devagar

Ando devagar porque já tive pressa, mas também porque continuo estraçalhada e caminhar carregando os caquinhos todos tentando não desmontar a cada novo passo demanda cuidado e tempo. Quando acho que tudo passou e a cola finalmente secou a dor chega como uma voadora no peito, insuportável, chego a perder o ar, perder o rumo. Não há moral da história, Helena, quando se morre de amor, morre-se sempre, todos os dias, o tempo todo.

Cílios

Bom dia, Helena, de repente surgiu um cílio imenso no olho direito. Sinto roçando no meu rosto quando pisco, poderia ser poético mas é apenas ridículo, pareço o Lopan de sobrancelhas imensas. Nem imaginava que posse possível ter apenas um cílio gigantesco ali, pendurado no olho, chorar se torna um desafio, tudo tão estranho quando se envelhece. Coloco toda a culpa no covid, mesmo sabendo que é só o tempo, o estresse, o Brasil.

Água

Dizem que a água limpa, leva embora o que não serve mais. Eu, que já tive 3 apartamentos inundados por acaso, não acredito em destino, mas aqui o acaso faz sempre com que o raio caia no mesmo lugar. O mês de julho mais longo da história, Helena, não quero nem pensar o que agosto nos reserva. Murphy anda exagerando na dose, demais até pra mim.

Festa

Amar depois do amor , quem poderia imaginar esse assombro quase um susto, uma surpresa encharcada de riso e desejo. Eu me emociono como se tudo fosse novo, porque, contra todas as possibilidades, é. Carrego comigo esse amor tão improvável num corpo em festa pra te receber.

Segunda

Um dia de cada vez, Helena. O mundo lá fora se desfaz em ódio e violência, mas aqui tudo se encaminha dentro do possível. Como é estranho esse caminho de criar o possível mesmo tendo o impossível como horizonte. Eu sigo de teimosa que sou, você bem sabe.