Mercado

Hoje acordei chorando, não de tristeza mas de resfriado, difícil manter um corpo saudável quando o mundo se esfacela. Mas sonhei com você e com senhorinhas no mercado, sem catástrofes ou tragédias, só a banalidade da vida e do amor. Parece um bom sinal.

Yang

Teve aquele tempo de paixões avassaladoras, foram muitas, mas essa desconfio que foi a mais insana, aquela beleza desconcertante, um desejo pueril efervescente e eu, uma ridícula. Um amor de linha telefônica, Pessoa certamente aprovaria, a esquisita e o desajustado, um desencontro desses não acontece todo dia. Século passado e aquele cheiro ainda me arrepia, tudo projeção, ilusão, mas o frio na barriga, esse não passa, nem o “e se”.

Mãe de mim

Nesse dia das mães eu quero falar sobre ser mãe: solteira, porque esse estigma eu carrego com orgulho, como carrego o de ser desquitada, de ser vadia, de ser livre. Mas também sobre ser mãe de mim mesma, porque antes de ser 100% responsável pelas minhas crias, tenho sido  100% responsável pela minha  própria sobrevivência desde sempre. Não é uma questão de dinheiro, ou não apenas, mas o fato de que essa solidão materna que hoje faz com que eu tenha que lidar sozinha com todos os aspectos da existência dos filhos  também passa por uma vida tendo que  lidar absolutamente sozinha com todos os aspectos da minha própria vida. É um sobreviver duro, árido, esse de não poder contar com ninguém a não ser consigo. Não ter um colo, um abraço, uma palavra de conforto. Hoje o desafio de ser a mãe que os meus filhos precisam esbarra na construção de ser a mãe que eu precisava e não tive. Se é preciso uma aldeia pra criar uma criança, o que é preciso pra criar uma mãe?
Então, sendo minha própria mãe, vou buscando formas outras de maternar e de existir.
Deixo hoje um abraço a todo mundo que tem que ser sua própria mãe e que a gente possa, cada vez mais, destruir essa violência toda que a gente chama de família e gestar modos outros de criar afetos e vínculos.

Em cólicas

Tenho essa amiga que é uma dama, sofisticada s educada, delicada e firme. Nos admiramos a distância, nem sempre cabemos uma na vida da outra, mas ela é sábia e generosa, o que já é mais do que suficiente. Sinto saudades de quem já fui, não sempre, mas há pedaços que me faltam, nada preenche. Tenho um livro para escrever e viver, que as deusas me ajudem.

Francês

Hoje eu boto a culpa toda nos hormônios, Helena, porque estava tudo dando tão errado e eu ali, impassível, até a hora que desmoronei sobre uma pia cheia de louça para lavar. É o governo, a fome, a falta de dinheiro, de perspectiva, de futuro, a minha incapacidade de resolver meus próprios problemas, nem os minúsculos, que dirá os gigantes, é a saudade, a distância, poderia ser tão simples, mas choro copiosamente há horas, as lágrimas ali rolando enquanto me afogo em pena de mim mesma. Eu escrevi uma carta de amor perfumada, obviamente só tem sentido pra mim, sou tão piegas quanto ridícula. Lembrei da minha professora particular de francês, que pessoa equivocada era aquela, não lembro o nome, mas o equívoco é inesquecível.

Trincas

Um deja-vú, Helena, o dia de hoje. Sonhei com flores enquanto o dentista escarafunchava minha boca, naquela absurda sessão de tortura à qual chamamos de tratamento. Repensei todas as péssimas decisões que tomei em minha vida, mais uma vez, como se houvesse um jeito de reparar o abandono e o vazio de quem se fez sozinha no mundo. Como se aquele dente trincado não representasse também os erros de agora, um coração pulsando acelerado, cheio de medo e desejo nesse meu corpo esfacelado. O apocalipse acabou por decreto, avisa o jornal, e eu permaneço incrédula achando que esse pesadelo nunca vai acabar. A utopia agora é um chalé chamado Noam Chomsky, ridícula que eu sou.

Plano B

Um belo dia você acorda e se percebe essa pessoa que não sabe o que será do dia de amanhã, se haverá um amanhã, sem planos, planejamentos, sem perspectivas. Tudo é possível mesmo não sendo, chorar em Paris, trabalhar na Nova Zelândia, passar um fim de semana na praia. Não há rota, mapa, nem caminho traçado, só uma distância a ser percorrida.

Véspera

Comecei o dia ficando na rua sem gasolina. Não preciso nem dizer como foi o resto, poderia fazer uma crônica irônica sobre minha própria desgraça, melhor tipo de humor. Mas ando tão exausta que até as palavras me fogem, Helena. Aguardo o embarque-desembarque para ter certeza de que vai ficar tudo bem.