Água

Dizem que a água limpa, leva embora o que não serve mais. Eu, que já tive 3 apartamentos inundados por acaso, não acredito em destino, mas aqui o acaso faz sempre com que o raio caia no mesmo lugar. O mês de julho mais longo da história, Helena, não quero nem pensar o que agosto nos reserva. Murphy anda exagerando na dose, demais até pra mim.

Festa

Amar depois do amor , quem poderia imaginar esse assombro quase um susto, uma surpresa encharcada de riso e desejo. Eu me emociono como se tudo fosse novo, porque, contra todas as possibilidades, é. Carrego comigo esse amor tão improvável num corpo em festa pra te receber.

Segunda

Um dia de cada vez, Helena. O mundo lá fora se desfaz em ódio e violência, mas aqui tudo se encaminha dentro do possível. Como é estranho esse caminho de criar o possível mesmo tendo o impossível como horizonte. Eu sigo de teimosa que sou, você bem sabe.

Mudança

Mais uma mudança e toda a história da minha vida passando na minha frente: o abandono, as péssimas escolhas, os erros meus e os do universo, uma história de equívocos, mesmo que eu continue tentando tanto e com tanta força. Às vezes desisto de tentar e volto a rolar como o feno do filme de cowboy. Exausta, Helena, e ainda nem comecei.

Vastidão

Eu me imagino em vídeo, fundo preto para ressaltar a fumaça, o cigarro na mão que gesticula sem parar. Uma senhora que poderia ter sido elegante, agora parece aquelas velhas de bar falando obscenidades e algumas frases de efeito e sabedoria de quem já viveu tudo. A solidão e o rosto devastado de Duras. Ninguém nunca chegou a me abarcar, Helena, nessa vastidão.

Estrago

Esgotei as metáforas, qualquer coisa que se diga agora já foi repetida exaustivamente por aqui. Sigo sendo soterrada por avalanches simbólicas, mas a dor é real. O insight de ontem gerou um desastre tão absurdo, a lage cedendo enquanto eu dormia, que só acordei depois de ter corrido para fora do quarto e voltado para buscar os óculos. Se eu realmente tivesse talento para contar histórias já estaria rica, porque o teatro do absurdo da minha vida gera um repertório profícuo. Sigo sonhando com cataclismas, Helena, esse é o tamanho do estrago do amor.

Dor

Bom dia, Helena, chuva, frio e esse peso em mim, meu coração. Já não lembro quem, nem quando, mas lembro. Esse corpo que agora é só dor, essa vida que hoje é só precária. Nadar e morrer na praia, que expressão horrível. Mas não morremos todos? Como Darcy, eu não queria nunca estar do lado de quem venceu. Mas haja brio para estar do lado de cá.