Alberto

Bom dia, Helena, eu continuo buscando salvação, não mais em um deus que pouco de importa conosco, mas cada vez mais nas pessoas. E nas palavras. Hoje elas me chegam com saudades na sua voz que eu tanto amo. Na nossa esperança em dias melhores. Chegam também pela voz grave de Alberto Pucheu lendo Quintana. Na minha lápide haverá Chagal, confesso que bebi, mas também haverá um “ela foi salva pelas palavras”.

Cabos

A vida segue seu curso, Helena, mesmo que eu esteja soterrada de trabalho e medo, mesmo que mais uma vez não possa fazer o curso do Carlito, mesmo que a saudade aperte e eu passe o dia com os olhos marejados. Exaustas venceremos, eu poderia dizer, mas nem eu ouso me enganar assim. Hoje passei um tempo desenrolando metros e mais metros de cabo, porque esse é o tamanho do sintoma e da falta de noção.

Feito a mão

Todas as cartas de amor são ridículas, não é Helena? Eu mudaria para todas as pessoas que amam são ridículas, porque olha, dias costurando e descosturando um presente, nem Penélope aguentaria, só pensando na metáfora para a minha vida: torto, mal acabado, sem molde, umas partes feitas erradas e remendadas por cima, um esforço gigantesco para esconder as gambiarras, um amor em cada ponto rapidamente dando lugar a “agora vai na força do ódio”. Um ano. Planejando o futuro? Não, imaginando um boneco.

Cleiton, o cthulhu mais feio do mundo. E eu, uma ridícula apaixonada.

Copa

Depois dos 30 eu comecei a separar as pessoas entre as que tinham sofrido com a copa de 82 e o resto. Isso definia o tipo de interlocução que eu teria, pois só quem viveu aquela derrota tem a alma talhada em real brasilidade. Hoje eu tenho um namorado que nem nascido era e o critério é outro, passando por não ser um ser humano horrível e por ser antifascista, esse último um atributo inegociável. E como eu conheço muita gente horrível, todos os dias me apego em algo que me salva. Normalmente é um texto, imagine só ser salva por palavras, às vezes é uma pessoa, hoje fui salva tantas vezes por pessoas e por palavras que acho que fiquei devendo. Estar viva é sempre esse assombro.

Mercado

Hoje acordei chorando, não de tristeza mas de resfriado, difícil manter um corpo saudável quando o mundo se esfacela. Mas sonhei com você e com senhorinhas no mercado, sem catástrofes ou tragédias, só a banalidade da vida e do amor. Parece um bom sinal.

Yang

Teve aquele tempo de paixões avassaladoras, foram muitas, mas essa desconfio que foi a mais insana, aquela beleza desconcertante, um desejo pueril efervescente e eu, uma ridícula. Um amor de linha telefônica, Pessoa certamente aprovaria, a esquisita e o desajustado, um desencontro desses não acontece todo dia. Século passado e aquele cheiro ainda me arrepia, tudo projeção, ilusão, mas o frio na barriga, esse não passa, nem o “e se”.