Telefone

Ney Matogrosso comemorou 80 anos e bateu, de novo, aquela saudade. Daquela vida vivida e imaginada lá atrás, no século passado, quando tudo era tão difícil, mas também tão bonito. Do homem com H, da rosa de Hiroshima, ficam esses registros de descobrir o mundo, duro e cruel, mas tão cheio de possibilidades. Para quem viveu uma vida toda no futuro, descobrir que havia um presente tão cheio de significados e possibilidades tem lá a sua beleza.

Ando emotiva, eu sei, confinada em sentimentos tudo é hiperbólico, choro demais, sofro demais, sinto demais. Mas não foi sempre assim? Eu mesma me pergunto. Foi, óbvio, mas muitos e muitos muros depois, tem um tanto de brechas e frestas e já é uma enxurrada de emoções. Canto Roberto como se não houvesse amanhã. Porque não há, mas essa é outra conversa.

Há dias canto “são 3 horas da manhã você me liga”, talvez por esperar um telefonema que nunca virá, mas também porque passei muito, mas muito tempo mesmo, em ligações telefônicas. Havia todo um cerimonial, uma praxe a ser seguida. Aprendíamos na escola, assim como preencher cheques e escrever cartas (essas merecem um capítulo especial). Para além de todo o mise-en-scène havia o destino, a conjunção astral que permitiria que a pessoa que deveria estar do outro lado da linha, realmente estivesse. Podia cair na secretária eletrônica, podia ser atendida pela mãe, podia tocar, tocar e não ser atendida. Por uma antropologia dos afetos e dos telefonemas, canto. “Porque se toca o telefone, pode ser alguém com quem você quer falar por horas e horas e horas.”

Eu já fui pedida em namoro pelo telefone, já tomei fora pelo telefone, já mandei dizer que não estava em casa porque não queria atender a ligação, já stalkeei (num tempo em que nem se usava esse termo) loucamente a pobre vítima alvo de ligações incessantes. Hoje ignoro ligações de São Paulo e, mesmo usando todas as funcionalidades do espertofone, só atendo ligações de 3 pessoas: minha irmã e minha pessoa e meu bff de pandemia.

Pensando em telefonemas que nunca farei, ensaio mentalmente a fala da terapia, numa tentativa de banalizar os absurdos que penso e faço, como se, ao repetir aquelas palavras, elas se tornassem mais aceitáveis. Porque cada vez que a analista entra em férias, no mês de julho, as coisas saem um pouco de controle. Nesse teatro de mim mesma (a quem estou querendo enganar?), carrego o celular no bolso, fingindo normalidade.

Haja vazio para tanta presença.

O que eu queria mesmo, de verdade, era te ligar. Assim ó:

Vadia

A primeira pessoa que me chamou de vadia foi minha mãe. Depois dela foram tantas outras, homens e mulheres, namorados, amigas, profes, colegas de trabalho, gente que eu nem conheço. Mas eu era né? Desbocada, saliente, desobediente. O que pode ser pior que uma menina que não obedece? Uma mulher que fala o que pensa? Que gosta de sexo, de bar, da rua, que não se limita? Fui crescendo assim, ouvindo: você não pode ser assim, agir desse jeito, pensar desse jeito. Você não pode fazer isso, estar nesse lugar. Aquela culpa da Eva, da Lilith, da Maria Madalena, da bruxa na fogueira, de todas as mulheres culpadas por serem mulheres, por serem vadias, por não terem limites, não obedecerem os limites. Foram 10 anos para entender como funciona o patriarcado, o machismo, o sexismo, a violência, o abuso, a intolerância, o preconceito, o limite. Sempre o limite. Marchando em diferentes espaços, na rua, na sala de aula, na academia, com tantas pessoas inacreditavelmente fantásticas que a vida colocou no meu caminho para caminhar ao meu lado. Queria poder nomear todas aqui, pois sei da importância que cada uma teve nessa (des)construção. Escrevi uma tese para registrar essa utopia fracassada, porque ganhamos e perdemos todes, essa potência que hoje segue represada e confinada no isolamento social serve pra lembrar que a necropolítica se enfrenta com corpos desejantes. Com riso e deboche, como só nós sabemos fazer.

Gosto

O vinho tem gosto de cigarro, não consigo entender o porquê, mas a cada novo gole todas aquelas memórias voltam como um vento no rosto. Leio textos enviados em garrafas digitais e penso que o isolamento não só me emburrece, ou me embrutece – como insiste o corretor – mas também me confunde e paralisa. Tomo mais um gole e penso que não é só gosto de cigarro, é o gosto da bituca, aquele cheiro do tabaco já queimado, gosto de cinzeiro, de fim de noite, de embriaguez. Na última vez que acendi um cigarro senti também o seu gosto, o nosso gosto, de cachaça com campari, marlboros de diferentes cores, gosto de sexo e de café. Eu não sinto mais a sua falta, apesar de ainda lembrar de tudo, de ainda querer tudo, poderíamos ter sido tanto, nada me convence do contrário, nem os erros e desencontros todos. Mas a sua foi a última boca que beijei, talvez por isso teu gosto ainda siga vivo. Sigo assim, num apocalipse de vontade.

Perdemos

Nós perdemos quando a mídia e a sociedade acharam que era uma escolha difícil optar entre o discurso de morte e o discurso acadêmico, as coisas não estão indo lá muito bem, mas pelo menos tiramos o PT, pouco importa se a vítima dessa escolha seja eu ou você.

Nós perdemos quando deixamos sentar na cadeira da presidência da República a milícia, o escritório do crime e o gabinete do ódio, pouco importa que seja um roteiro de HQ de terror, de horror e de genocídio, afinal bandido bom é bandido morto, morreu foi pouco.

Nós perdemos quando achamos que discurso identitário é cultura do lacre e enfraquece a disputa política, há tantas coisas mais importantes para serem discutidas, mesmo que quem morra seja o preto, mesmo que se mate mulheres e crianças em uma creche, porque o ódio misógino faz parte também da ferida colonial que sangra no nosso jardim.

Nós perdemos quando achamos que pode ser gay mas não seja bicha louca, uma pena o Paulo Gustavo, mas também essa ditadura do politicamente correto já cansou, saudade de quando homem era Homem, com H maiúsculo, mesmo que na República de Curitiba, a capital mais fascista do país, haja um serial killer atacando e matando viados.

Nós perdemos quando já não contamos mais os números, quando já não lembramos mais os nomes, não sabemos quem morre e muito menos quem vive, porque já não vivemos há muito.

Nós perdemos a luta, a batalha, a guerra. A vida. O humano. A esperança.

Nós perdemos como um corpo sem vida numa cadeira de plástico.

Nós perdemos.

Menudo

A vida toda está indo embora, cada dia uma nova tristeza de adeus. Deixar ir é deixar doer, é abrir espaço para o vazio. Li hoje que um Menudo não deveria morrer e penso em como meus unicórnios e fadas se foram todos muito cedo e por isso aqui é tudo abismo e deserto. Às vezes acho que nunca tive uma chance, já cheguei estragada, poderia haver um aviso de defeito de fabricação. Porque ninguém deveria viver em constante devastação, não o tempo todo, sem trégua nem respiro. Passei 24h sozinha e isso foi o que bastou. Sinto falta do seu abraço, seu sorriso continua comigo. Mas são dias demais.

Passado

Aos 15 eu estava lendo Platão e Nietzsche, não entendi nada, mas Ferlingheti sim falou comigo, recitei de cor junto com Blake. Não me tornei mais inteligente por isso, porque também li Sidney Sheldon e Danielle Steel. Que eu seja toda prosa, de leitura longa e lenta, é apenas um detalhe sem maior importância. Porque continuo ininteligível como Deleuze e mesmo que você não conheça esses nomes não há problema algum, pois eles nada dizem de mim, apenas de algo que faz parte da minha história. Assisti aos filmes do Kieslowski, tão importantes quanto Hughes, esse sim o formador de caráter de toda a minha geração. A pessoa que assistiu Alguém muito especial e concordou comigo hoje é apenas a lembrança de um flerte muito mal sucedido e deixo aqui registrado que, nesse caso específico, a conta da paquera fracassada pode ser dividida meio a meio. Sinto falta de quem eu era e olha que nem gostava muito de mim. Mas havia talvez uma promessa, um devir, algo que estava quase. Essa saudade fala de tantos momentos que eu vivi intensamente e de outros que nem me lembro, mas estão marcados em meu passado. Já não suporto mais essa palavra, só não é pior do que futuro porque esse nem sequer existe. Esvazio meu baú de memórias ao longo do caminho, como um carreto de mudanças que se abre e vai espalhando restos de vida por todos cantos. Já passou da hora de viajar mais leve, vou vivendo de letras de músicas e sensações de amor. Mas seu sorriso ainda carrego comigo.

Domingo

Essa história não tem fim, também não tem começo. Poderia ser o dia em que nasci, mas também quando minha avó recusou casar -se com o homem que entrava a cavalo no bar. Carrego todas as mulheres que fui e que foram. Um dia eu amei, no outro eu gozei, sinto falta de estar com, de estar em. Mas estar só continua sendo meu maior prazer.

Divago pois há tantas aqui dentro. As páginas do caderno continuam em branco, mas hoje eu declamei uma poesia e isso foi suficiente. Tropeço em meus erros e medos, o fim do mundo tem sido bem assustador. Até para quem é um furacão. Carrego rugas e palavras não ditas. Domingo, o sol se põe, o frio aumenta e a saudade lateja. Não sobrou nada de nós.

O pulso ainda pulsa

Estava lá, com a boca aberta, pensando no tamanho da humilhação de quebrar um dente, isso nunca havia acontecido, mesmo tendo dentes fracos, tudo em mim é fraco. Lembro da última consulta médica, os olhos que nunca enxergaram bem agora estão tão cansados, quem é que não está nadando na exaustão, não há como manter um corpo funcional em meio ao colapso. Um corpo que vai colapsando aos poucos, crises alérgicas, muitas, inflamação, dor, muita, dentes fracos, unhas fracas, cabelos fracos, não há vitamina que dê conta.

Enquanto o dentista escarafunchava minha boca pensei no primitivismo nessa tortura institucionalizada, nos meus óculos que não estão prontos, no último bom dia, no último meme, em como corri para apagar e deletar e excluir e desfazer, achando que assim poderia mais rapidamente fazer desaparecer o afeto, a paixão, o desejo. Como se esse vazio e essa falta não estivessem repletos de presença, enquanto eu recolho os cacos desse coração partido ouvindo de novo aquela música, pensando em que diabos eu tinha na cabeça quando aceitei dormir de conchinha – virtual, eu que nem dividir a mesma cama sou capaz.

Daí que é tanta dor nesse corpo que vem o colapso real, nada é metáfora por aqui, digo e repito. E hoje choro de dor enquanto me sinto mesquinha e egoísta porque é só um dente quebrado, é só um coração partido. E as pessoas morrem, cada dia mais, parece que nunca vai parar esse horror. Então entendo que minhas dores são dores de quem está viva, de quem luta para se manter viva, não há nenhuma lição ou ensinamento nisso, muito menos agradecimento. Não sou cristã para me alimentar de culpa e graça e jamais perdoaria um deus que deixasse que boas pessoas morressem como moscas enquanto os maus, os perversos, continuam no governando. Nem em democracia eu acredito para achar que seja de alguma validade esse jogo sórdido.

Tomo uma taça de vinho para apaziguar a dor, amanhã o dente sara, o coração já não acredito mais, são tantos pedaços estilhaçados tantas vezes que já não há mais o que fazer. Canto canções velhas que me lembram que já vivi uma vida inteira, ou várias vidas inteiras, entendendo que é só tristeza e que em meio a tanta dor e tantos pedaços o pulso ainda pulsa. E isso precisa bastar.

Sad and Brazilian

Passei 2020 full pistola, fervendo em ódio e bile. Do governo, das pessoas que o elegeram, que seguiam negando a pandemia, das pessoas anticiência, anticonhecimento, se aglomerando nas ruas, mantendo sua rotina de vida enquanto seguíamos em isolamento. Esse ódio serviu de motor para acordar todos os dias e para manter o foco no que era mais importante naquele momento: sobreviver. Manter uma rotina minimamente regular de alimentação e atividades de trabalho e estudo, manter a atenção concentrada nos filhos e em suas necessidades. Eles entenderam tão facilmente o privilégio de poder ficar em segurança em casa que ainda hoje, um ano depois, não reclamam e nem pedem para sair.

Esse ódio foi alimentado por todos os planos e sonhos que tive que abandonar, projetos que estavam finalmente saindo do papel, uma vida que começava a ser vivida, eu me reconstruindo e me reescrevendo após os anos de puro sofrimento pós-separação. Fui aos blocos de carnaval, decidi que não queria mais relações em que não houvesse reciprocidade e que ainda havia uma – nova – história que poderia ser vivida. Inclusive transformar esse blog em um lugar de divulgação e produção de conteúdos sobre gênero, foco da minha pesquisa acadêmica.

Esse ódio fez com que eu me mudasse de casa e tivesse que encarar uma história que já achava superada, reviver momentos de dor e poder ressignificá-los, transformando descaso em autoamor, músicas de coração partido em dança furiosa e libertadora. Arrumar e desarrumar, limpar e sujar, guardar e bagunçar, quinze anos de uma vida que não existe mais, dar cabo dos restos por que é preciso, mesmo que não se queira, assim é a vida, sempre trazendo o que achei que não cabia mais.

Esse ódio fez com que eu mergulhasse em mim, sendo obrigada a me olhar todos os dias, todos os dias, não há como fugir da tela, da imagem na tela, me olhando e me julgando: por que não fez diferente? porque não fez outras escolhas? por que não fez melhor? E assim, me olhando e olhando o mundo colapsando em minha volta, fui deixando o ódio fora, e por estar fora, dentro sobrou vazio e nesse vazio floresceram possibilidades outras, tão novas e surpreendentes que chegaram a assustar. É um assombro a potência de vida e de amor, já contei isso em prosa e verso aqui no blog, em todas as redes sociais, e mesas de bar virtuais.

Então sobrevivi a 2020 pela força do ódio, mas também do amor, porque descobri que era possível existir uma outra existência.

Haverá festa com o que restar – Francisco Mallmann

E então veio 2021 e o horror da falta de ar, materializada na falta de oxigênio, e nos corpos se empilhando nas filas de hospitais e na exaustão do meu próprio corpo confinado e toda aquela potência se extinguiu em poucos dias. Foi dando espaço a um coração cansado, a um pulmão cansado, a um sono entrecortado, tudo insuficiente. Muita tristeza, muita tristeza, porque se nem no paraíso se canta o tempo todo, essa gente que ri quando deve chorar e não vive apenas aguenta também deixa de aguentar.

Carne e Colapso – Jéssica Stori

São 365 dias que poderiam ter sido 30, 20, quantos dias são precisos para que uma nação decida se salvar? Eu que nem nacionalista sou, sofro de Brasil, sofro de viver no Brasil, e choro e me afogo em tristeza. Sofro o luto de ver toda aquela vida se acabar. E assim, exausta e triste, sigo para mais 365. Quem está a minha volta sofre comigo, porque é tristeza demais, chega a contaminar. Eu, que sempre fui um pouco (ou muito) triste, não me abalo, porque minha tristeza é potência de vida. Se a força do ódio deu lugar à força da dor, sigo. Apenas sigo. Nunca tive fé ou esperança, apenas esse moto contínuo que me faz seguir, não importa o que é que faça a roda girar. Sigo, para mais 365 dias.

O mito de Sísifo – Albert Camus

Batom

Compro um livro de “contos de batom borrado” e lembro-me imediatamente que a última vez que borrei meu batom foi naquele beijo de despedida, quando ainda achávamos que o fim do mundo seria apenas um hiato e não um abismo. Um beijo meio roubado, porque eu queria e quero sempre, você bem sabe, tão fácil foi o primeiro quanto foi o último. Fácil como se a nossa volta não houvesse mais ninguém. Lembrei-me das cartas de amor, do sofá, da cachaça, da conversa no café da manhã, do seu corpo na minha cama. Do eterno presente, em que nada e tudo era possível, o tempo sempre em suspensão, apenas nossas línguas dançando em corpos entrelaçados. Seu sorriso de batom borrado é a memória mais bonita desse mundo que não existe mais.