agora é quase amanhã

Obrigada por ter vindo. Eu sei que é loucura, ligar assim no meio da noite. Nos conhecemos tão pouco. Talvez não houvesse outro modo. E a noite é tão silenciosa. Daqui a pouco vai amanhecer. Não gosto de me fazer inusitada. Mas o dia só acaba quando a gente sonha. E eu queria ver você. Pensei em você. Justamente por ser mais distante de mim do que qualquer outro. E tão próxima. Assim é que vejo. Precisava olhar de perto essa expressão de espanto e surpresa. Os meus amigos não se surpreendem mais. Estão todos entediados da vida. Cheios da vida, como não dizem os anúncios publicitários. Você é silenciosa como a madrugada. E eu fico enchendo seus olhos de palavras. Não é nada sério. Acredite. Só queria viver esse dia até o fim. Só queria ver no fim desse dia esses seus olhos. Um anônimo que surpreenda esse olhar solto na rua de um dia qualquer vai sentir também assim. O que digo não é absurdo. Acredite. Quero que saiba: não tenho mais medo. Os medos estão todos em mim apaziguados. Nenhum outro receio que seja pode atravessar a linha da minha tristeza. Por isso chamei você aqui. Para que o dia comece depois do sonho. Agora é quase amanhã. E a manhã surgirá coberta de uma superfície silenciosa. Acolhendo os gritos do dia. O imenso dia. Depois não saberemos mais. E não saber está entre o que é temor e possibilidade.

Assionara Souza

recado – Assionara Souza

Recado

“Preciso que você veja
Entre as coisas esquecidas
A louça suja na pia
O mofo pousando cruel na doçura das frutas
Observe, por favor, se não deixei
Naquele canto do quarto
Por onde os insetos entram
Na ferrugem do ferrolho da janela da cozinha
Essa que sempre te acorda
Quando eu insisto em abrir
Assim que o sol se ajeita melhor no céu
Procure na caixa de areia dos gatos
Entre os pelos dos bichanos onde correm as pulgas que não matei
No desgaste da bicicleta largada no jardim
Talvez no banco de trás do carro que estraga estraga e você conserta
Olhe também embaixo das espreguiçadeiras
Na água amarga do jarro de flores que você esquece de trocar
Na ansiedade que antecede a raiva, quando a moça do telemarketing
Não atende, não atende, não atende
Sua solicitação
Entre os livros da estante, tantos não lidos —
Em eterno estado de espera e culpa burguesa
Nas mil declarações de amor que lhe chegam in box
Vigie se por ali, no cheiro do café
No pão cortado, os farelos sobre a mesa
No silêncio entre as notas de sua música preferida
Dá uma olhada se não larguei por esses cantos
Os sete pedaços do meu coração.”

Assionara Souza

7

Curitiba, sexta-feira, fim de ano, fim de mundo.

Finjo normalidade enquanto as noites são insones, a fome se vai na ansiedade e no estresse de lidar com a vida, a minha e a de todo mundo. Conto os dias na esperança de que passem mais rápido, bem sabendo que a urgência ainda me consome e me assola. Vi sua imagem na praia, Helena, que o mar leve tudo o que não cabe mais e te traga somente amor. Quem sabe um pouco daquela felicidade com a qual sonhamos.

Quinta

Problemas, Helena, como se já não tivesse os meus ainda tenho que lidar com os dos outros. Carência, falta de noção e de vergonha na cara, falta de empatia e de acolhimento. Não é apenas sobre limites ou a falta deles, mas sobre o fato de que minha própria condição é desconhecida (ou não levada em consideração) até por quem esta muito perto. Sério, cansa demais.