Perdemos

Nós perdemos quando a mídia e a sociedade acharam que era uma escolha difícil optar entre o discurso de morte e o discurso acadêmico, as coisas não estão indo lá muito bem, mas pelo menos tiramos o PT, pouco importa se a vítima dessa escolha seja eu ou você.

Nós perdemos quando deixamos sentar na cadeira da presidência da República a milícia, o escritório do crime e o gabinete do ódio, pouco importa que seja um roteiro de HQ de terror, de horror e de genocídio, afinal bandido bom é bandido morto, morreu foi pouco.

Nós perdemos quando achamos que discurso identitário é cultura do lacre e enfraquece a disputa política, há tantas coisas mais importantes para serem discutidas, mesmo que quem morra seja o preto, mesmo que se mate mulheres e crianças em uma creche, porque o ódio misógino faz parte também da ferida colonial que sangra no nosso jardim.

Nós perdemos quando achamos que pode ser gay mas não seja bicha louca, uma pena o Paulo Gustavo, mas também essa ditadura do politicamente correto já cansou, saudade de quando homem era Homem, com H maiúsculo, mesmo que na República de Curitiba, a capital mais fascista do país, haja um serial killer atacando e matando viados.

Nós perdemos quando já não contamos mais os números, quando já não lembramos mais os nomes, não sabemos quem morre e muito menos quem vive, porque já não vivemos há muito.

Nós perdemos a luta, a batalha, a guerra. A vida. O humano. A esperança.

Nós perdemos como um corpo sem vida numa cadeira de plástico.

Nós perdemos.

Menudo

A vida toda está indo embora, cada dia uma nova tristeza de adeus. Deixar ir é deixar doer, é abrir espaço para o vazio. Li hoje que um Menudo não deveria morrer e penso em como meus unicórnios e fadas se foram todos muito cedo e por isso aqui é tudo abismo e deserto. Às vezes acho que nunca tive uma chance, já cheguei estragada, poderia haver um aviso de defeito de fabricação. Porque ninguém deveria viver em constante devastação, não o tempo todo, sem trégua nem respiro. Passei 24h sozinha e isso foi o que bastou. Sinto falta do seu abraço, seu sorriso continua comigo. Mas são dias demais.

Passado

Aos 15 eu estava lendo Platão e Nietzsche, não entendi nada, mas Ferlingheti sim falou comigo, recitei de cor junto com Blake. Não me tornei mais inteligente por isso, porque também li Sidney Sheldon e Danielle Steel. Que eu seja toda prosa, de leitura longa e lenta, é apenas um detalhe sem maior importância. Porque continuo ininteligível como Deleuze e mesmo que você não conheça esses nomes não há problema algum, pois eles nada dizem de mim, apenas de algo que faz parte da minha história. Assisti aos filmes do Kieslowski, tão importantes quanto Hughes, esse sim o formador de caráter de toda a minha geração. A pessoa que assistiu Alguém muito especial e concordou comigo hoje é apenas a lembrança de um flerte muito mal sucedido e deixo aqui registrado que, nesse caso específico, a conta da paquera fracassada pode ser dividida meio a meio. Sinto falta de quem eu era e olha que nem gostava muito de mim. Mas havia talvez uma promessa, um devir, algo que estava quase. Essa saudade fala de tantos momentos que eu vivi intensamente e de outros que nem me lembro, mas estão marcados em meu passado. Já não suporto mais essa palavra, só não é pior do que futuro porque esse nem sequer existe. Esvazio meu baú de memórias ao longo do caminho, como um carreto de mudanças que se abre e vai espalhando restos de vida por todos cantos. Já passou da hora de viajar mais leve, vou vivendo de letras de músicas e sensações de amor. Mas seu sorriso ainda carrego comigo.

Domingo

Essa história não tem fim, também não tem começo. Poderia ser o dia em que nasci, mas também quando minha avó recusou casar -se com o homem que entrava a cavalo no bar. Carrego todas as mulheres que fui e que foram. Um dia eu amei, no outro eu gozei, sinto falta de estar com, de estar em. Mas estar só continua sendo meu maior prazer.

Divago pois há tantas aqui dentro. As páginas do caderno continuam em branco, mas hoje eu declamei uma poesia e isso foi suficiente. Tropeço em meus erros e medos, o fim do mundo tem sido bem assustador. Até para quem é um furacão. Carrego rugas e palavras não ditas. Domingo, o sol se põe, o frio aumenta e a saudade lateja. Não sobrou nada de nós.

O pulso ainda pulsa

Estava lá, com a boca aberta, pensando no tamanho da humilhação de quebrar um dente, isso nunca havia acontecido, mesmo tendo dentes fracos, tudo em mim é fraco. Lembro da última consulta médica, os olhos que nunca enxergaram bem agora estão tão cansados, quem é que não está nadando na exaustão, não há como manter um corpo funcional em meio ao colapso. Um corpo que vai colapsando aos poucos, crises alérgicas, muitas, inflamação, dor, muita, dentes fracos, unhas fracas, cabelos fracos, não há vitamina que dê conta.

Enquanto o dentista escarafunchava minha boca pensei no primitivismo nessa tortura institucionalizada, nos meus óculos que não estão prontos, no último bom dia, no último meme, em como corri para apagar e deletar e excluir e desfazer, achando que assim poderia mais rapidamente fazer desaparecer o afeto, a paixão, o desejo. Como se esse vazio e essa falta não estivessem repletos de presença, enquanto eu recolho os cacos desse coração partido ouvindo de novo aquela música, pensando em que diabos eu tinha na cabeça quando aceitei dormir de conchinha – virtual, eu que nem dividir a mesma cama sou capaz.

Daí que é tanta dor nesse corpo que vem o colapso real, nada é metáfora por aqui, digo e repito. E hoje choro de dor enquanto me sinto mesquinha e egoísta porque é só um dente quebrado, é só um coração partido. E as pessoas morrem, cada dia mais, parece que nunca vai parar esse horror. Então entendo que minhas dores são dores de quem está viva, de quem luta para se manter viva, não há nenhuma lição ou ensinamento nisso, muito menos agradecimento. Não sou cristã para me alimentar de culpa e graça e jamais perdoaria um deus que deixasse que boas pessoas morressem como moscas enquanto os maus, os perversos, continuam no governando. Nem em democracia eu acredito para achar que seja de alguma validade esse jogo sórdido.

Tomo uma taça de vinho para apaziguar a dor, amanhã o dente sara, o coração já não acredito mais, são tantos pedaços estilhaçados tantas vezes que já não há mais o que fazer. Canto canções velhas que me lembram que já vivi uma vida inteira, ou várias vidas inteiras, entendendo que é só tristeza e que em meio a tanta dor e tantos pedaços o pulso ainda pulsa. E isso precisa bastar.

Sad and Brazilian

Passei 2020 full pistola, fervendo em ódio e bile. Do governo, das pessoas que o elegeram, que seguiam negando a pandemia, das pessoas anticiência, anticonhecimento, se aglomerando nas ruas, mantendo sua rotina de vida enquanto seguíamos em isolamento. Esse ódio serviu de motor para acordar todos os dias e para manter o foco no que era mais importante naquele momento: sobreviver. Manter uma rotina minimamente regular de alimentação e atividades de trabalho e estudo, manter a atenção concentrada nos filhos e em suas necessidades. Eles entenderam tão facilmente o privilégio de poder ficar em segurança em casa que ainda hoje, um ano depois, não reclamam e nem pedem para sair.

Esse ódio foi alimentado por todos os planos e sonhos que tive que abandonar, projetos que estavam finalmente saindo do papel, uma vida que começava a ser vivida, eu me reconstruindo e me reescrevendo após os anos de puro sofrimento pós-separação. Fui aos blocos de carnaval, decidi que não queria mais relações em que não houvesse reciprocidade e que ainda havia uma – nova – história que poderia ser vivida. Inclusive transformar esse blog em um lugar de divulgação e produção de conteúdos sobre gênero, foco da minha pesquisa acadêmica.

Esse ódio fez com que eu me mudasse de casa e tivesse que encarar uma história que já achava superada, reviver momentos de dor e poder ressignificá-los, transformando descaso em autoamor, músicas de coração partido em dança furiosa e libertadora. Arrumar e desarrumar, limpar e sujar, guardar e bagunçar, quinze anos de uma vida que não existe mais, dar cabo dos restos por que é preciso, mesmo que não se queira, assim é a vida, sempre trazendo o que achei que não cabia mais.

Esse ódio fez com que eu mergulhasse em mim, sendo obrigada a me olhar todos os dias, todos os dias, não há como fugir da tela, da imagem na tela, me olhando e me julgando: por que não fez diferente? porque não fez outras escolhas? por que não fez melhor? E assim, me olhando e olhando o mundo colapsando em minha volta, fui deixando o ódio fora, e por estar fora, dentro sobrou vazio e nesse vazio floresceram possibilidades outras, tão novas e surpreendentes que chegaram a assustar. É um assombro a potência de vida e de amor, já contei isso em prosa e verso aqui no blog, em todas as redes sociais, e mesas de bar virtuais.

Então sobrevivi a 2020 pela força do ódio, mas também do amor, porque descobri que era possível existir uma outra existência.

Haverá festa com o que restar – Francisco Mallmann

E então veio 2021 e o horror da falta de ar, materializada na falta de oxigênio, e nos corpos se empilhando nas filas de hospitais e na exaustão do meu próprio corpo confinado e toda aquela potência se extinguiu em poucos dias. Foi dando espaço a um coração cansado, a um pulmão cansado, a um sono entrecortado, tudo insuficiente. Muita tristeza, muita tristeza, porque se nem no paraíso se canta o tempo todo, essa gente que ri quando deve chorar e não vive apenas aguenta também deixa de aguentar.

Carne e Colapso – Jéssica Stori

São 365 dias que poderiam ter sido 30, 20, quantos dias são precisos para que uma nação decida se salvar? Eu que nem nacionalista sou, sofro de Brasil, sofro de viver no Brasil, e choro e me afogo em tristeza. Sofro o luto de ver toda aquela vida se acabar. E assim, exausta e triste, sigo para mais 365. Quem está a minha volta sofre comigo, porque é tristeza demais, chega a contaminar. Eu, que sempre fui um pouco (ou muito) triste, não me abalo, porque minha tristeza é potência de vida. Se a força do ódio deu lugar à força da dor, sigo. Apenas sigo. Nunca tive fé ou esperança, apenas esse moto contínuo que me faz seguir, não importa o que é que faça a roda girar. Sigo, para mais 365 dias.

O mito de Sísifo – Albert Camus

Batom

Compro um livro de “contos de batom borrado” e lembro-me imediatamente que a última vez que borrei meu batom foi naquele beijo de despedida, quando ainda achávamos que o fim do mundo seria apenas um hiato e não um abismo. Um beijo meio roubado, porque eu queria e quero sempre, você bem sabe, tão fácil foi o primeiro quanto foi o último. Fácil como se a nossa volta não houvesse mais ninguém. Lembrei-me das cartas de amor, do sofá, da cachaça, da conversa no café da manhã, do seu corpo na minha cama. Do eterno presente, em que nada e tudo era possível, o tempo sempre em suspensão, apenas nossas línguas dançando em corpos entrelaçados. Seu sorriso de batom borrado é a memória mais bonita desse mundo que não existe mais.

Palavras desenhadas

Acordo chorando, mais uma vez, e desisto de colocar a culpa nos hormônios, pois sei que são dias demais em quarentena e agora tudo vem em cachoeiras. O isolamento apenas impediu que levasse meu confinamento para passear, pois sigo presa em mim mesma há 1138 dias, também não posso mais culpar a pandemia mundial pelo o fato de que não sei o que fazer de mim. Foi uma ótima desculpa, mas um ano já se passou e agora é preciso tomar uma providência. Desde sempre eu desenho palavras, houve um tempo em que até achei que podia fazer uns versos, parei (ainda bem), mas mantive firme a tentativa de ordenar em palavras tudo o que carrego aqui dentro. Ou deixar fluir essa quantidade imensa de água-sentimento que jorra em mim. Quando não consigo, faço rascunhos facilmente apagáveis, invento palavras sem nexo em meus pensamentos, ou empresto palavras. Fal fala sobre “o peito borbulhando de dor” e lembro que aqui tudo sempre foi caos e destruição, se fizesse meu léxico de palavras entre posts e memes seria algo como: dor, fracasso, abismo, flerte ruim. E variações sobre o mesmo tema.

Mas ontem eu também acordei chorando e fiz um treino duplo de ballet, porque essa cachoeira de emoções represadas que não passeiam precisam escapar por todos os poros, em suor e ácido lático, transformadas em algo que se assemelhe a dopamina, serotonina, endorfina e ocitocina, não dá pra ser feliz confinada eternamente em si, as princesas disney que me perdoem. Também fiz uma torta de maçã, pois o mundo continua acabando todos os dias e não há dieta restritiva que dê conta de um corpo saudável quando se morre de tristeza um pouco a cada dia. Então, aquela torta sovada entre lágrimas e suspiros se transformou na comida mais gostosa do ano, no doce favorito da vida toda, na top 3 das delícias gastronômicas maternas. São 1138 dias construindo esses pequenos momentos, esses mínimos detalhes onde habita a maravilha de dividir a vida com meus filhos. A maternidade sempre me foi um lugar de conforto, mesmo nesse universo de devastação que sou. Então olho para a foto de fundo de tela do meu celular novo, me assusto por 2segs com aquela velha de olheiras profundas que aparece ali e lembro que ganhei um abraço e um “mãe, tira uma foto nossa pra por no seu celular” e tudo faz sentido novamente. Meu propósito é uma promessa de vida, o privilégio de poder me manter isolada com meus filhos enquanto o fim do mundo acontece lá fora.

Antes de ontem também acordei chorando, são muitos dias de choro, pois tudo borbulha aqui dentro, e eu fiz uma playlist com músicas de amor, mal percebendo que toda a minha vida é uma longa narrativa sobre corações partidos, o meu e o dos outros, e por isso estar apaixonada é esse assombro e salto no escuro e já a expectativa do fim. Eu não sei dançar tão devagar, Marina, não sei dançar juntinho, mal consigo dançar sozinha. Encontrar um ritmo e compasso que possa ser compartilhado é algo que me gera ansiedade, pois além de abismo sou terremoto e sonho com tornados devastadores. Coloco meus sentimentos todos em capsulas de contenção, torcendo para que ninguém – além de mim – se machuque no processo. Eu queria um amor que se desdobrasse em frestas, mas acordo chorando e me lembro que o carnaval já passou, o ano começa amanhã e preciso – de novo – pregar os quadros nas paredes e arrumar a estante de livros.

Quem é que ainda lê livros nos dias de hoje, afinal?

Gostar

Essa coisa de gostar de si é estranha, de repente você para de pedir desculpas por ser e começa a achar, inclusive, que outras pessoas também podem se interessar por você. Então começa a se mostrar mais um pouquinho, ainda lembrando de quando não se gostava, de quando não lhe gostavam. Mostra algumas partes boas, “olha como posso também ser engraçada”, porque você acha que a graça é das melhores qualidades que uma pessoa pode ter. Mesmo que seja apenas a habilidade de rir da própria miséria existencial, não dá pra confiar em quem se leva muito a sério e se tem em alta consideração. Mostra também algumas partes não tão interessantes, porque carregar em si um abismo é deveras assustador e bem sabemos que a maioria dos seres viventes não aguenta quando o abismo olha de volta. Então, mostramos só um pouquinho mesmo, porque se gostar é também se proteger e não há coragem maior do que se manter a salvo quando você é alguém que ama se arriscar. Querer que outra pessoa lhe goste é também permitir que alguém expresse seu afeto, mesmo que você queira dizer “não me ame tanto”, porque aqui morremos de amor e isso não é recomendável para nenhuma das partes envolvidas. Gostar de si pode ser, como qualquer amor, uma aventura muito linda, com borboletas no estômago e declarações de amor em plena madrugada. Pode até fazer com que você queira dividir esse afeto. Mesmo quando você nem sabe quais os jeitos de gostar, quais os jeitos de ser feliz.

Ano 1

2020 foi um ano horrível, para muita gente foi o pior ano da vida. A perda de pessoas queridas, o projeto genocida necropolítico, a falta de perspectiva, de apoio, de dinheiro. A precariedade, o horror, o ódio. Ver, estampado na cara, o quanto as pessoas são horríveis: mesquinhas, egoístas, burras. O ocaso da humanidade, dos projetos coletivos e pessoais. Não saímos melhores, não aprendemos nada, levará uma geração inteira para reverter o dano causado pelo combo pandemia-governo.

Sobreviver tem exigido da gente uma série de habilidades e competências que se tornam cada vez mais imensas e intensas. Saúde mental entrou definitivamente para a ordem do dia e até quem estava ok com a terapia, já fazendo tratamento, teve que dar conta de um existir sufocante e absurdo. A falta de expectativa, o medo da doença, a desesperança, passaram a exigir de nós muito mais do que coragem. óbvio que aqui estou falando da maior parte da minha bolha, que pôde fazer homeoffice e, mesmo com diferentes questões geradas pela necessidade de garantir a subsistência sem sair de casa, teve condições de se proteger minimamente.

Então, nesse primeiro ano de pandemia achamos que a quarentena seria apenas o tempo de 40 dias ou até as férias de julho, aprendemos a fazer pão, a meditar, cuidar das plantas, fazer pequenos reparos domésticos, flertamos e acreditamos que seria um aprendizado para a humanidade. Lá por julho percebemos que nada disso fazia sentido, que as pessoas estavam morrendo e que não melhoramos em nada. Eu, vivendo essas flutuações todas, tive uma série de transformações tão profundas que ainda não consigo mensurar. Parei de fumar, consegui dormir, me relacionar com meus filhos e decidi que queria viver. Pela primeira vez eu não apenas não queria morrer, mas realmente queria viver. Foi o que eu fiz.

Fui aprender a viver uma nova vida. Muitas coisas fiz do mesmo jeito que sabia, mas vi que o resultado não era o que eu esperava. Então fui arriscar fazer diferente. Fui buscar outras formas de existir, de conhecer, de aprender, de amar, de ser. Tudo era possível na segurança do meu quarto. A análise foi fundamental nesse processo todo, nada disso teria sido possível se não houvesse acompanhamento terapêutico e uma intensa vivência de autoconhecimento. Olhar meus demônios e piores fantasmas, deixar que viessem a tona para que pudessem ir embora ou se transformar em outra coisa. Há muito tempo quero viajar mais leve e continuo carregando toneladas de passados. Dores, frustrações, violências, traumas, medos. Tenho morrido há tanto tempo que quando o mundo começou a morrer eu pude, finalmente, viver.

Meus últimos anos foram de dor e sofrimento intensos, a morte que todo mundo viveu nesse ano de 2020 eu já estava vivendo há anos, já tinha morrido em 2018 e em 2019. E por isso soube o que precisava fazer para viver nesse primeiro ano de pandemia (sim, porque continuaremos nessa por algum tempo). Mandar embora a pulsão de morte foi o primeiro passo, colocar a mim e aos meus filhos como prioridade, o segundo. Deixar o passado para trás, encontrar o que me alegra, me dá prazer, me faz feliz permitiu que eu me descobrisse, me desvendasse. Não há fórmula nem mágica. Sobreviver requer esforço, viver requer coragem.

Conhecer o caminho, trilhar o caminho. Cultivar subversiva alegria, mesmo quando o mundo se desmancha a sua volta. Vencer a pulsão de morte, seja ela sua ou de quem te governa. Vencer a pulsão de morte. Para que então possamos reconstruir esse mundo, ou criar um novo. Haja força, haja alegria, haja amor.